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Gracias, Flávio

27/03/2019
Gracias, Flávio
Flávio Moreira da Costa era poeta, romancista e cronista. Ganhou prêmios importantes com sua obra autoral, incluindo o Machado de Assis, o Nestlé de Literatura e três Jabutis. Mas é do Flávio antologista que quero falar hoje. E não só porque ele foi um dos mais destacados organizadores de coletâneas literárias entre nós, chegando a lançar cerca de trinta obras desse gênero, ou porque algumas delas se tornaram best-sellers quando de sua publicação, foram adotadas em escolas e compradas por programas de governo. Minha visada aqui vai ser um pouco mais pessoal.
 
Quando terminei a graduação no final dos anos 1990, não imaginava que na sequência da minha formação acadêmica privilegiaria como objeto de estudo justamente esse gênero de publicação e não um autor ou uma obra determinada. Não escolhi, fui arrebatada pelas antologias quando me dei conta de que elas deram corpo às nossas letras, criando um cânone a partir do qual uma história da literatura brasileira pôde ser escrita. Pensando na minha própria formação como leitora, vi como as coleções Para gostar de ler e mais tarde a Mar de histórias desempenharam um papel fundamental para que eu descobrisse tantos dos autores que me ganharam por nocaute com seus contos — para usar a feliz definição de Julio Cortázar — e me despertaram uma compulsão gulosa de quero mais.
 
Somado a tudo isso, teve a virada do século que motivou uma enxurrada de retrospectivas, listas dos 100 mais disso ou daquilo e, é claro, coletâneas. Entre estas, as várias organizadas por Flávio. Foi aí que o conheci, como leitora. Nessa época também, mais precisamente em 2002, entrei para o mercado editorial e, uns anos mais tarde, por uma feliz coincidência me tornei sua editora.
 
É claro que, depois de estudar por tanto tempo essas obras que se escrevem para aquém e para além de si mesmas — já que reúnem, num só lugar, “fragmentos” de várias outras, propiciando ao leitor um acesso rápido e fácil a um conteúdo expandido, ou pelo menos expandível —, acompanhar seu processo de construção era um enorme privilégio. 
Privilégio maior ainda foi poder acompanhar, dos bastidores, etapa por etapa, desde a escolha do título, a seleção e ordenação do material escolhido, a redação de apresentações e outros textos auxiliares até a exposição dos critérios e dos objetivos visados a cada antologia, elementos que Flávio sabia manipular com maestria para dar coesão às obras, a despeito do caráter fragmentário de sua composição.
 
Aliás, vale observar que são esses elementos que revelam o caráter mediador que esse gênero assume. Não por acaso um dos sinônimos para o vocábulo antologia, em língua inglesa, é o substantivo reader, significando que o universo da produção literária ou de outras áreas de conhecimento passou pelo crivo de um leitor especialista para só então chegar às mãos dos demais leitores. É por essa razão que, segundo Emmanuel Fraisse, a antologia literária deve ser analisada como uma leitura criadora, e Flávio, acrescento eu, soube como ninguém se valer de seu imenso repertório pessoal para nos brindar com suas escolhas de mestre.
 
Nos últimos tempos, Flávio estava doente. Teve que ficar internado por cerca um mês, mas quando voltou para casa deu seguimento ao trabalho de seleção para a nova antologia que preparava para a Nova Fronteira. Conseguiu finalizar essa etapa, mas faltavam os paratextos que, segundo sua previsão, viriam em breve. Não vieram...
 
No último sábado à noite recebi uma curta nota que ele ainda teve tempo de escrever (ou ditar) para o livro. Chegou até mim por seu endereço de e-mail, mas já não enviada por ele. No texto, Flávio agradece, em espanhol, aos amigos e aos contos que leu durante a vida, desde a adolescência. 
 
Pois faço o mesmo aqui. Gracias, Flávio, por sua preciosa contribuição. Agradeço em meu nome e em nome da editora por todas as boas histórias que você contou, coletou e eternizou nas páginas dos nossos livros e da literatura brasileira, por sua generosidade em nos fazer conhecer tantos autores e textos importantes e, é claro, por aguçar nossa vontade de ler cada vez mais. 
 
Janaína Senna

Palavras-chave

Flávio Moreira da Costa
Livros
Literatura
Literatura Nacional