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bOX com grandes obras de Platão apresenta em um mesmo volume, pela primeira vez no Brasil, O julgamento e a morte de Sócrates

24/09/2018
bOX com grandes obras de Platão apresenta em um mesmo volume, pela primeira vez no Brasil, O julgamento e a morte de Sócrates

“Enquanto cada uma das épocas passadas teve de abordá-lo para lidar melhor com seus respectivos tempos, parecendo um escritor contemporâneo, Platão escreve para o nosso tempo, sendo de questões da atualidade que ele parece tratar. Simultaneamente antiga e atual, clássica e contemporânea, intempestiva ou extemporânea, é hoje que a potência enigmática dessa escrita radicalmente inventiva, desse pensamento infinito, pulsa em nós e para nós, dando-nos o que pensar.”

Do prefácio de Alberto Pucheu para O julgamento e a morte de Sócrates

 

A Nova Fronteira lança em outubro um box com as grandes obras do filósofo que mais influenciou a cultura ocidental. O primeiro volume traz A República, enquanto o segundo, em O julgamento e a morte de Sócrates, nos brinda com a reunião dos diálogos “Eutífron”, “Apologia de Sócrates”, “Críton” e “Fédon”, uma compilação inédita no Brasil. O banquete, um de seus textos mais caros ao público, encerra a edição.

Num momento em que a sociedade vive uma crise de representatividade política, em que eleições podem ser baseadas e definidas em fatos não comprovados ou falsos, reler Platão é deparar-se com questões atemporais que podem iluminar os desafios atuais da democracia, ainda a principal forma de organização do Estado. Ou a mais justa. Em A República, Platão propõe que os futuros chefes de um Estado ideal pratiquem um treinamento físico e moral ministrado pelos filósofos, além de terem educação científica e política. “Os filósofos, possuídos pelo amor à verdade, pelo gosto da pesquisa, pela faculdade de bem discernir, são os que sabem situar as coisas num conjunto ordenado”, diz o texto de apresentação do volume. “O que realmente continua valioso em Platão, além de sua arte poética, é o espírito político de exame e proposição de soluções, isto é, a sondagem do político como agente na transformação e superação dos problemas da sociedade.”

O segundo volume traz a reunião, inédita no Brasil, dos diálogos “Eutífron”, “Apologia de Sócrates”, “Críton” e “Fédon” em O julgamento e a morte de Sócrates, e ainda um prefácio do poeta e filósofo Alberto Pucheu, que destaca a importância de se ler Platão com “dedicação amorosa e laboral” e de forma independente da interpretação dos especialistas. Para Pucheu, Platão é ambíguo, complexo, inventivo e pulsante, tratando de questões atemporais como se fossem atuais. Para ele:

 

Platão não foi o único a abordar o ciclo referente ao julgamento e à morte de Sócrates, mas foi aquele que, por saber recriá-lo como nenhum outro, tratou-o insuperavelmente da maneira mais à altura desse seu mestre, diferenciando-se, por isso mesmo, inclusive, dele: com Sócrates como sua personagem criada a partir do homem histórico sem que possamos saber exatamente quem é um e quem é outra, fazendo-se em situação-limite, a filosofia se assume como indiscernível da poesia (da qual provém), como um modo específico de poesia, mas também como indiscernível da política, que ela ajuda a repensar, incorporando, ainda, a possibilidade de uma leitura histórica realizada, em diferença, desde o momento em que tais textos são compostos.

 

Os diálogos “Eutífron”, “Críton” e “Fédon” foram traduzidos diretamente do grego, sendo os dois primeiros por Bruno Gripp e o último por Jorge Paleikat e João Cruz Costa. Já “Apologia de Sócrates” traz a clássica tradução feita do francês por Maria Lacerda de Moura, primeira a ser publicada no Brasil. O banquete também foi traduzido do grego, por Jorge Paleikat, com notas de João Cruz Costa e Maria Helena Rouanet. No prefácio, Alberto Pucheu ressalta a importância das traduções e, principalmente, o nome de Maria Lacerda de Moura, feminista, anarquista e militante contra o fascismo. É justamente na “Apologia” que, nestes tempos de certezas absolutas e de incapacidade de diálogo, lemos uma das passagens mais emblemáticas do filósofo, contada por Sócrates, tido pelo oráculo de Delfos como o mais sábio dos homens: sua sapiência vinha da sua certeza de que ele não sabia de nada, “podendo se espantar e perguntar pelas mais diversas coisas”.

 

TRECHO DE “APOLOGIA DE SÓCRATES”:

O que vós, cidadãos atenienses, haveis sentido, com o manejo dos meus acusadores, não sei; certo é que eu, devido a eles, quase me esquecia de mim mesmo, tão persuasivamente falavam. Contudo, não disseram, eu o afirmo, nada de verdadeiro. Mas, entre as muitas mentiras que divulgaram, uma, acima de todas, eu admiro: aquela pela qual disseram que deveis ter cuidado para não serdes enganados por mim, como homem hábil no falar.

Mas, então, não se envergonham disso, de que logo seriam desmentidos por mim, com fatos, quando eu me apresentasse diante de vós, de nenhum modo hábil orador? Essa me parece a sua maior imprudência, se, todavia, não denominam “hábil no falar” aquele que diz a verdade. Porque, se dizem exatamente isso, poderei confessar que sou orador, não, porém, à sua maneira.

Assim, pois, como acabei de dizer, pouco ou absolutamente nada disseram de verdade; mas, ao contrário, eu vo-la direi em toda a sua plenitude. Contudo, por Zeus, não ouvireis, por certo, cidadãos atenienses, discursos enfeitados de locuções e de palavras, ou adornados como os deles, mas coisas ditas simplesmente com as palavras que me vierem à boca; pois estou certo de que é justo o que digo, e nenhum de vós espera outra coisa. Em verdade, nem conviria que eu, nesta idade, me apresentasse diante de vós, ó cidadãos, como um jovenzinho que estuda os seus discursos. E todavia, cidadãos atenienses, isso vos peço, vos suplico: se sentirdes que me defendo com os mesmos discursos com os quais costumo falar nas feiras, perto dos bancos, onde muitos de vós me tendes ouvido, em outros lugares, não vos espanteis por isso, nem provoqueis clamor. Porquanto, há o seguinte: é a primeira vez que me apresento diante de um tribunal, na idade de mais de setenta anos: por isso, sou quase estranho ao modo de falar aqui. Se eu fosse realmente um forasteiro, sem dúvida me perdoaríeis, se eu falasse na língua e maneira pelas quais tivesse sido educado; assim também agora vos peço uma coisa que me parece justa: permiti-me, em primeiro lugar, o meu modo de falar — e poderá ser pior ou mesmo melhor —, depois, considerai o seguinte, e só prestai atenção a isso: se o que digo é justo ou não; essa, de fato, é a virtude do juiz, do orador — dizer a verdade.

 

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