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Cumprimentos entre povos

17/04/2020
Cumprimentos entre povos

É assunto por demais palpitante o que se relaciona com as fórmulas e gestos de cumprimento e saudação entre vários povos que habitam este orbe terráqueo. Além de não fugir muito de nossa matéria, o que se vai ler oferecerá a alguns leitores uma série de curiosidades sobre o tema proposto.

Nem todos os aspectos das fórmulas e gestos serão aqui tratados; nem tampouco estas linhas pretendem ser a última palavra, nem têm sombra de ostentar o luxo de coisas inéditas.

 

É opinião corrente que as mais antigas maneiras de saudação seriam aquelas que consistiam em se lançar ao chão em sinal de inferioridade a quem cumprimentava. Assim procedem ainda hoje povos orientais e tribos selvagens.

Com o correr do tempo, foram substituídas pelo durativo ou momentâneo ajoelhar, pela curvatura demorada ou rápida do tronco e da cabeça, com as quais se indicava, simbolicamente, o intuito de submissão.

 

Este segundo gesto com rapidez é completamente estranho para nós outros brasileiros, e muito espalhado entre alemães e pela Europa. Tenho observado que entre nós, quando há intimidade, se costuma indicar o encontro com duas pessoas conhecidas fazendo-se uma ligeira suspensão das sobrancelhas, sinal talvez de agradável surpresa da presença do amigo. O costume de cumprimentar tirando o chapéu da cabeça parece ter-se originado do fato de, nestes atos de curvar a parte superior do corpo humano, a sua cobertura tender a cair. O indivíduo então se preparava, trazendo-a à mão. O gesto naturalmente agradou a todos pela sua simplicidade e comodidade, e veio a desbancar o seu concorrente na sociedade moderna, embora não se desprezando de todo o hábito primitivo que se especializou para as circunstâncias mais respeitosas. O descobrir a cabeça nestas situações parece ter-se tornado comum aí pelos séculos XVI ou XVII.

 

Quanto ao beijo, o assunto exige mais complexidade. Este gesto é assaz antigo como exteriorização de nosso afeto e carinho a um ente querido.

Só quando há mais familiaridade ou parentesco próximo é que se ajunta o beijo ao cumprimento. E em países onde as imagens de santos são veneradas com ósculo, o beijo passou a ser sinal de respeito. Este respeito nasceria também do amor puro.

 

Neste particular, é bom que se note que os gregos refletem em seu vocabulário a íntima relação entre amar e beijar. Da mesma maneira procedem os países eslavos. J.J. Nunes, citando R. Kleinpaul (Volkspsychologie, 36), nos lembra de que o sérvio “Ijubiti” significa ambas as coisas, e “Rukulibám” ou “beijo-lhe as mãos” é uma delicadeza e todos os dias se ouve aos tchecos. E mais. Quem não se recordará, neste instante, do fecho de respeito das cartas em espanhol?: “q.s.m.b”, iniciais que querem dizer: “que su mano besa”?

 

Permita-me o leitor abrir aqui um parêntese: os romanos tinham três denominações para o ato de beijar: osculum, basium e savium. Pretendeu-se afirmar que os escritores davam sentido particular a cada um destes vocábulos. Segundo alguns estudiosos, osculum demonstrava amizade, basium significava amor, savium expressava prazer.

 

Tal não revela, entretanto, a prática dos literatos latinos. Catulo, dirigindo-se à sua Lésbia, usa de basium onde deveríamos esperar, conforme o pretendido axioma, savium:

“Da mihi basia mille, deinde centum.

Dein mille altera, deinde secunda centum,

Deinde usque altera mille, deinde centum,

Dein, cum milia multa fecerimus,

Conturbabimus illa, ne sciamus,

Aut nequis malus individere posit,

Cum tantum sciet esse basiorum.”

(1,v)

E assim estes versos foram traduzidos pelo nosso correto Francisco Otaviano:

“Dá-me um beijo, portanto, e cem, e centos, 

E estes centos repete mais cem vezes;

E quando for mui longa, perturbemos

Essa conta dos beijos... Pode a inveja,

Se os somar todos, nos lançar maus olhos!...”

O beijo, como sinal de amor e afeição, não é somente dado nos lábios. Se esta é a forma habitual, não implica isto que seja a única. Varia também entre as comunidades o número de beijo na face, de um, dois (entre nós) a quatro, como fazem, por exemplo, os holandeses.

E fechemos sem mais demora o parêntese.

Os gregos, ao verem chegar um amigo, ou quando o encontravam, ou ainda quando dele se despediam, exclamavam “Kaire” (Alegra-te!). Os romanos, ao aproximar-se, diziam “Ave” (Seja saudado!); quando se retiravam “vale” (Fique com saudade!).

Os israelitas, aos conhecidos mais íntimos, beijam-se uns aos outros na mão, na cabeça e ombro. A sua habitual forma de saudação é “Cholem Alechem” (pronuncie-se Xalém Aléque, que significa Paz convosco!).

 

Lancemos nossas vistas para a culta Alemanha. Em algumas terras, daí, faz parte das boas maneiras beijar a mão às senhoras.

 

A diferença de seita religiosa implica quase sempre diferença nas fórmulas de saudação. Assim, enquanto a Alemanha protestante usa de “Guten Morgen! Ihr Diener!” (ao pé da letra: Bom dia! Seu criado!), por sua vez, a Alemanha católica serve-se de “Gelobt sei Jesus Christus!”, expressão recomendada pelo papa Benedito XIII, por volta do ano de 1728, além de outras variações regionais. A tais cumprimentos se respondia com “In Ewigeit, amem!” (literalmente: Em eternidade, Amém).

 

Na sociedade moderna, a forma de despedida difere da primeira saudação, e o mais idoso diz: “Gott befohlen! (Encomendado a Deus), “adieu”. E muitas vezes, a própria pessoa que se despede: “Empfehle mich!”(o que em bom português clássico significaria “Encomendo-me”, e na linguagem moderna, “Recomendo-me”).

 

Homens que dedicam mutuamente grande amizade se saúdam com o beijo, por quase todas as terras da Europa. Na despedida, alguns povos usam beijo na boca.

Na Inglaterra, porém, o beijo só era permitido com os parentes mais chegados.

 

Quanto ao beija-mão, na Itália só era dado fazê-lo aos amigos muito íntimos; na Rússia, por sua vez, as damas respondiam ao beija-mão de um cavalheiro com um beijo na testa.

 

O inglês saúda a alguém com o já conhecido “How do you do?”, “Good-Bye!” (redução que a linguagem coloquial fez da expressão “God be with ye”, antiga fórmula de despedida. Frequente em Shakespeare era “God buy you”. Abreviadamente, temos também “God buy”, ainda “b’w’y”), “Farewell”.

 

Semelhantemente, o holandês “Vaar well!”, o sueco “Farval!”, os franceses “Bonjour! Au plaisir!” (de vous revoir), os espanhóis “Buenos días! Adios! Hasta la vista!”, os italianos “Buon Giorno! Addio! A riverderci”. Em Portugal adeus (= a Deus) é a saudação tanto para o encontro como para a despedida; no Brasil, principalmente na cidade, só se usa para a despedida. Outra forma de despedida é o tchau, este mais moderno. O tchau, tão difundido entre nós brasileiros, na despedida, chegou-nos por influxo do italiano ciao, forma reduzida de schiavo, “escravo”, correlata a formas de cumprimento do tipo de seu servo.

 

Os turcos entrecruzaram os braços, batendo-os contra o peito, e curvam a cabeça. O árabe vulgar diz “Aleikum essalem” (Paz convosco). Os indus, em Bengala, tocavam a testa com a mão direita e curvavam a cabeça para a frente. Quando desejavam juntar ao ato uma demonstração de profunda reverência, colocavam primeiro a mão direita no peito, depois tocavam com ela o chão e, por fim, a testa, e, ao mesmo tempo, chamavam a si escravo submisso da pessoa a quem saudavam.

 

Em Ceilão, os súditos atiravam-se ao chão diante do superior que passava, e murmuravam, continuamente, o nome e título do superior.

Em geral, a maior parte das maneiras de saudação, no Oriente, e principalmente na Magnólia, tinha um cunho de pensar de escravo, modernamente, é claro que a influência do contato com outros povos tenha feito significativa mudança em tais maneiras.

 

Na China, quando duas pessoas a cavalo se encontravam, o inferior descia do animal e deixava passar o superior. No Japão, o inferior tinha de tirar a sandália diante do superior, enfiar a mão direita na manga da esquerda e descer vagarosamente os braços até o joelho e caminhar compassadamente diante do outro com gestos terríveis, exclamando “Auk! Auk!” (Não me faça mal!).

 

Entre os africanos civilizados, os abissínios caíam de joelho e beijavam a terra; os mandingas, ao saudarem uma mulher, pegavam-lhe a mão chegavam-na até o nariz e cheiravam-na duas vezes...

 

Os egípcios estendiam a mão, colocavam-na sobre o peito e curvavam a cabeça.

 

Entre os povos menos civilizados do mundo antigo, por exemplo, os camulcas, anamitas, em Nova Guiné, Taiti, ilhas Sandwich, da Sociedade e dos Amigos, era muito  espalhado o mútuo e insistente cheirar e juntar os narizes, esfregando-os um de encontro ao outro ou ainda com os lábios, e um forte ato de respiração.

Nas ilhas dos Navegadores, isto se dava com pessoas de igual condição. O inferior esfregava o próprio nariz e cheirava então a mão do outro. Semelhantemente procediam os habitantes das ilhas Sunís e Fidji.

 

E para terminar, a mais curiosa saudação que conheço: os tibetanos deitavam a língua para fora e faziam caretas arreganhando os dentes, e coçavam as orelhas.

Neste momento em que enfrentamos uma pandemia e precisamos evitar sair de casa pela saúde de todos, deixamos temporariamente de lado os cumprimentos calorosos próprios do nosso povo. O brasileiro, sempre muito criativo, já criou outros tantos cumprimentos à distância para evitar contato físico, mas sem deixar de transmitir o carinho que sente pelo próximo. E mantermos o isolamento necessário neste momento só deixa clara nossa solidariedade e a preocupação com o coletivo, para que em breve possamos voltar a nos encontrar pessoalmente e nos cumprimentar efusivamente da forma como estamos acostumados.

 

Texto publicado no jornal Mundo Português e na revista Na ponta da Língua, originalmente em duas partes: 16/8/1991 e 23/8/1991.

 

Palavras-chave

Bechara
Língua Portuguesa