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Uma obra sobre desejo, liberdade e a reflexão sobre o que é moral ou imoral na sociedade

11/09/2018
Uma obra sobre desejo, liberdade e a reflexão sobre o que é moral ou imoral na sociedade

Prêmio Nobel de Literatura, André Gide escreveu “O imoralista” em 1902

“Saber libertar-se não é nada; o difícil é saber ser livre”

(André Gide)

        

            No prefácio de O imoralista, André Gide se antecipa a possíveis polêmicas que o romance, publicado em 1902, poderia suscitar em sua época, dizendo que se absteve de julgar as atitudes de seu protagonista, Michel. No entanto, o autor adverte também que sua história, apesar de ser “um fruto cheio de cinza amarga”, contém também beleza. Afinal, reforça, “em arte não existem problemas – dos quais a obra de arte não seja a suficiente solução”. E conclui: “De resto, não tentei provar coisa alguma, mas unicamente pintar bem e dar suficiente realce à minha pintura”.

            Michel é um rapaz erudito que dedica-se apenas ao exercício da leitura e da escrita. Perde a mãe com 15 anos e, no leito de morte do pai, aos 25 anos, promete se casar com a jovem Marceline, mesmo sem amá-la. Aos amigos, confessa: “ignorante ainda de mim mesmo, julguei possível entregar-me a ela.” O livro é narrado pela voz do protagonista, que vai revelando aos amigos como sua visão de mundo mudou a partir do casamento, da viagem de lua de mel pela África e de uma doença que quase lhe tirou a vida.

            Os sintomas da tuberculose, aliás, eram agravados, segundo ele, também por “uma perturbação nervosa de ordem geral”. Em determinado ponto da viagem, Michel se entrega à sua mulher, mas são os corpos masculinos dos rapazes com quem convive que lhe despertam paixões. Durante a viagem à África, começa também a questionar como os estudos o distanciavam de uma vida real, cheia de experimentações e prazeres mundanos. Na volta a Paris, passa a desprezar os eventos sociais e hipocrisias e falsidades dos homens de sua época, intelectuais incapazes de viver despojadamente e de acordo com os parâmetros da arte e da filosofia.

            Em sua busca pela nova identidade, Michel passou a sentir prazer em lidar com homens à margem da sociedade e em aceitar e também promover pequenos delitos. Na propriedade que herdou de seu pai, apaixonou-se por Charles, filho do caseiro, ironicamente chamado Bocage (uma homenagem ao poeta português das poesias eróticas?), mas também envolveu-se com empregados que praticavam roubos na sua propriedade.    À medida que o livro avança, Gide vai relatando com mais detalhes as escapadas de seu protagonista, permitindo-se narrar mais livremente suas aventuras sexuais e seu horror a convenções, aos bens materiais e às moralidades da sociedade.

O imoralista é um dos principais romances de Gide, que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1947. O livro, esgotado desde a década de 1980, reflete sobre a liberdade e os desejos e deixa no ar a pergunta: afinal, o que é ser imoral?

 

Palavras-chave

Clássicos de ouro
Dicas
Literatura
Livros
Nova Fronteira
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